Pão de Açúcar entra com pedido de recuperação extrajudicial e cita dívidas de R$ 4,5 bilhões
Por: Ana Paula Branco
Fonte: Folha de S. Paulo
O GPA (Grupo Pão de Açúcar) afirmou nesta terça-feira (10) que fechou acordo
com seus principais credores para apresentação de um plano de recuperação
extrajudicial.
De acordo com fato relevante do varejista, o plano abrange determinadas
obrigações de pagamento sem garantia que não constituem obrigações
correntes ou operacionais da companhia, no montante total de
aproximadamente R$ 4,5 bilhões.
"Ficam expressamente excluídas obrigações correntes junto a fornecedores,
parceiros e clientes, bem como obrigações trabalhistas, que não serão afetadas",
afirmou a empresa.
A decisão foi autorizada de forma unânime pelo conselho de administração da
companhia e faz parte de negociações que vinham sendo conduzidas nas últimas
semanas com instituições financeiras e detentores de títulos da empresa.
O acordo foi assinado com credores que concentram aproximadamente 46% dos
créditos sujeitos ao plano —cerca de R$ 2,1 bilhões. O percentual supera o
mínimo exigido pela legislação para a apresentação desse tipo de reestruturação.
A empresa afirma que o plano já produz efeitos imediatos e prevê a suspensão
temporária das obrigações financeiras junto aos credores incluídos no processo.
A medida cria uma janela de 90 dias para que a companhia amplie a adesão ao
acordo e negocie uma solução definitiva para sua estrutura de capital.
Na prática, esse período funciona como uma trégua nas cobranças enquanto a
varejista tenta reorganizar o perfil de seu endividamento e buscar um equilíbrio
financeiro mais duradouro.
No fato relevante, a empresa afirmou que o objetivo da reestruturação é
fortalecer o balanço e melhorar a sustentabilidade financeira no longo prazo. O
grupo também destacou que a negociação vem sendo conduzida em "diálogo
construtivo" com os principais credores.
A companhia disse ainda que a recuperação extrajudicial foi desenhada para
preservar a operação das lojas. Segundo a empresa, as unidades seguem
funcionando normalmente e o abastecimento não será afetado.
A varejista afirmou estar em dia com pagamentos a fornecedores e parceiros
comerciais —grupos que foram excluídos do plano justamente para evitar
impactos na operação do negócio.
O que é uma recuperação extrajudicial?
O instrumento utilizado pela empresa é previsto na Lei de Recuperação Judicial e
Falências do Brasil. Diferentemente da recuperação judicial tradicional, o modelo
extrajudicial permite que empresas renegociem dívidas diretamente com
credores e levem o acordo posteriormente para homologação da Justiça, desde
que seja atingido o quórum mínimo de adesão.
O GPA informou que divulgará detalhes adicionais sobre o processo e os
documentos da reestruturação em seu site de relações com investidores nas
próximas semanas.
A decisão do GPA de avançar com um plano de recuperação extrajudicial ocorre
após semanas de deterioração da confiança de credores e fornecedores diante
da situação financeira da companhia.
No início de março, a empresa chegou a enviar uma carta a fornecedores para
tentar conter temores de ruptura no abastecimento das lojas. No documento, o
CEO Alexandre Santoro afirmou que as negociações em curso envolviam apenas
credores financeiros —principalmente bancos e detentores de dívida— e não
afetariam os parceiros comerciais da rede.
A carta veio depois de a agência de classificação de risco Fitch Ratings rebaixar a
nota de crédito do grupo de "A" para "CCC", nível que indica risco substancial de
calote e capacidade muito fraca de pagamento. Foi o segundo corte em poucos
meses —em novembro, a empresa já havia perdido o grau "AA".
A agência apontou o aumento do risco de refinanciamento das dívidas, a piora
da liquidez e a expectativa de fluxo de caixa livre negativo nos próximos anos
caso o endividamento não seja reduzido.
Os números do balanço ajudam a explicar a pressão financeira. O GPA possui
cerca de R$ 1,7 bilhão em dívidas com vencimento já em 2026 e terminou o
último trimestre com capital de giro líquido negativo em aproximadamente R$
1,2 bilhão. O endividamento total do grupo gira em torno de R$ 4 bilhões.
Além disso, a companhia revelou em suas demonstrações financeiras a existência
de cerca de R$ 16 bilhões em disputas tributárias classificadas como "perdas
possíveis" —valores que não estão provisionados no balanço, mas que
representam um risco potencial.
Auditores da Deloitte chegaram a registrar nos relatórios uma "incerteza
relevante" que poderia levantar dúvidas sobre a continuidade operacional da
empresa.
Desde que se tornaram os principais acionistas do grupo, em maio do ano
passado, no lugar do Casino (que comandou o Pão de Açúcar entre 2012 e 2023),
os Coelho Diniz não deram entrevistas. A família mineira controla uma rede de
supermercados de mesmo nome, no leste de Minas Gerais.
Em resposta ao rebaixamento, a varejista afirmou que a "atualização de rating
não resulta em descumprimento de covenants [obrigações aplicadas aos
tomadores de crédito] previstos nos instrumentos de endividamento e contratos
de financiamento da companhia."